terça-feira, 20 de dezembro de 2011

REGRA DE TRÊS


Sétimo romance escrito por Diedra Roiz. Postado pela primeira vez de Março a Dezembro de 2010.



PLÁGIO É CRIME! NÃO COPIE, CRIE! 
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Lembrando que... Copiar o texto e apenas trocar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?





SINOPSE:

Cris e Silvinha, duas amigas lésbicas, estão à procura de alguém para dividir o apartamento com elas, e quem sabe, até algo mais...
Geralmente, quem procura acha.
O que não quer dizer que vai encontrar, exatamente, o que buscava...
Inúmeras confusões, seduções e trapalhadas marcam esta comédia romântica cheia de situações e personagens engraçadas.



MÚSICAS QUE INSPIRARAM A HISTÓRIA:











Capítulo Um

- Olha só, Silvinha: o anúncio foi pra encontrar alguém pra dividir o apê com a gente. Não pra achar uma pretendente pra você.
Depois de uma mordida no pão que segurava, de boca cheia mesmo, os farelos saltando a torto e a direito, Silvinha respondeu:
- Mas podemos unir o útil ao agradável, não podemos? Quem sabe a minha alma gêmea não acaba vindo parar aqui dentro?
Depois de uma risada absolutamente escrachada, Cris retrucou:
- É, até poderíamos...
Desligou o fogo, pegou a chaleira e derramou a água fervendo no coador de café em cima da garrafa térmica. Depois completou:
- Se essa coisa de alma gêmea existisse.
Já com a xícara estendida, Silvinha disse:
- Amiga, se eu não te amasse tanto diria que... Putz, Cris... Você é horrível!
A reação de Cris foi voltar a rir. Enquanto enchia a xícara de Silvinha direto do coador. A superioridade de sempre na voz, quando contestou:
- Horrível não. Realista.
Foi a vez de Silvinha rir:
- Realista? Insensível, isso sim!
Ainda segurando o coador e a térmica, Cris perguntou:
- Insensível por quê?
Voltou a depositar tudo em cima do mármore da pia. Pegou duas fatias de pão de forma e colocou na torradeira, enquanto Silvinha dizia:
- Ah, Cris... Nem vem! Você nunca está sozinha. Nas raras ocasiões em que está solteira, tem esse sem número de... Como eu posso definir? Mulheres satélite?
Cris pegou o pote de geléia e uma colher. Gargalhando. Antes de virar-se para a amiga:
- Olha lá! Mais respeito! Me apaixono facilmente. Não tenho culpa, não é mesmo? Queria o que? Que eu ficasse igual a você: solitária enlouquecida, numa cruzada em busca da mulher da minha vida?
Brandiu a colher imitando movimentos de esgrima. As duas riram. Antes de Silvinha novamente responder:
- Não, né. Mas também não precisa ir passando o rodo pelo caminho... Afinal, como diz o ditado: quem muitas ama, não ama ninguém...
Cris enfiou a colher no pote, e colocou uma porção tão grande de geléia na boca que teve dificuldade em dizer sem babar nem cuspir:
- Nem vem! A diferença entre nós, Silvinha, é só uma. – parou para engolir - Eu sei aproveitar a vida enquanto espero.
Lambeu a colher até deixá-la completamente limpa. Nesse momento, os pães saltaram. Com tanta força que se projetaram. O primeiro caindo no chão. O segundo, Cris conseguiu interceptar com um pratinho:
- Definitivamente, precisamos consertar essa torradeira!
Pegou a fatia do chão, com a intenção de jogá-la no lixo. Mas Silvinha a impediu:
- Jogando comida fora? Que desperdício! Me dá isso aqui!
Soprou o pão, afirmando, convicta:
- O que não mata engorda, amiga!
Atacaram juntas o pote de geléia. Disputando quem conseguia besuntar primeiro a própria fatia. Como sempre, Silvinha.
Sentou vitoriosa na cadeira onde estava antes, e após morder o pão como se estivesse faminta, prosseguiu:
- Quer dizer então, que só está aproveitando enquanto espera... Espera o que, posso saber?
Com a mesma forma exagerada e melodramática com que mordeu o pão, Cris esclareceu:
- A mulher certa. A que vai dar sentido a minha vida vazia. Aquela destinada a fazer com que todas as outras pareçam invisíveis, nada, ou... Restos.
Silvinha sacudiu a cabeça negativamente, em total desaprovação:
- Pobre coitada. Resto é o que vai sobrar pra ela, isso sim.
Fazendo Cris rir. Da forma mais sacana possível:
- Tenho culpa se passaram mel em mim?
Silvinha pensou alto. Simplesmente escapou:
- Pois em mim devem ter passado esperma!
As duas se olharam, antes de exclamarem juntinhas:
- Eca!
Riram gostosamente. Terminaram de tomar o café. Silvinha lentamente, com cuidado para não queimar a boca. Cris praticante de um gole só.
Enquanto ajudava Cris a colocaram a louça na pia, Silvinha insistiu:
- Pois meu lema vai continuar o mesmo: pra que esperar, se posso buscar?
Cris a olhou reprovando completamente:
- É por isso que nenhum relacionamento seu dá certo. Ansiosa demais, assusta as mulheres. Acabam todas correndo de você. Vai é arrumar um jeito da sua alma gêmea nem passar por perto!
Silvinha mostrou a língua para a amiga, antes de dizer:
- Isso é o que nós vamos ver!
De uma forma muito, mas muito determinada mesmo.

 
Silvinha havia acabado de tirar o jaleco, pronta para sair do laboratório e ir almoçar, quando o celular tocou. Procurou em cima da bancada, na própria mesa, na bolsa.
Nada.
Tentou seguir o som, mas parecia vir de todos os lados... Ou então... Sempre de onde estava... Olhou para baixo... Para o casaco de moleton que estava usando. Colocou a mão no bolso em frente à barriga... E o aparelho estava lá. Igual a um filhote de canguru escondido.
Felizmente, ainda não havia parado de tocar. Pela persistência, Silvinha já sabia quem era:
- Fala, Cris!
A voz do outro lado reclamou como sempre fazia:
- Caramba, Silvinha! Será que algum dia você vai atender sem eu ter que ligar pela terceira vez? Se fosse a tal alma gêmea, já teria desistido...
Riu sozinha da própria gracinha. Silvinha não deixou barato:
- Me ligou pra ficar fazendo piadinha?
Imediatamente, Cris retrucou:
- Nope! Pra te contar o péssimo andamento das coisas.
Já sabendo do que se tratava, Silvinha primeiro suspirou. E só depois falou:
- Tá. Manda. Quantas você já descartou hoje, senhorita nenhuma é boa o bastante para morar com a gente?
Ignorando a ironia da amiga, Cris questionou:
- Me diz só uma coisa, amiga: você pendurou o anúncio num aeroporto?
Silvinha não respondeu. Ao invés disso perguntou:
- Por que?
Cris não agüentou:
- Deixa eu ver: porque hoje ligaram uma alemã, uma japonesa e uma argentina. Ou isso, ou estamos com falta de brasileiras no Rio de Janeiro.
Silvinha confessou:
- Coloquei num hostel. Algum problema?
- Não, mas... Não prestou, porque... Nenhuma serviu.
Silvinha olhou no relógio: uma boa parte do almoço perdida. Foi curta e grossa:
- Vamos lá, jogo rápido: a alemã não servia por que?
- Ela simplesmente desligou.
Obviamente, Silvinha não acreditou:
- Como assim, desligou do nada?
- Tá... Eu fiz uma brincadeirinha.
- Cris...
- Nada demais...
- Cris...
- Eu só falei uma coisinha...
- O quê?
- Heil, Hitler!
Silvinha explodiu:
- Puta que o pariu, Ana Cristina!
O nome completo era sinal de que a amiga estava realmente brava. Mas Cris defendeu o próprio comportamento com o jogo de cintura que o trabalho de assessoria de marketing lhe conferia:
- Se ela não tem um mínimo de humor negro, não ia mesmo conseguir conviver comigo...
Silvinha preferiu não discutir:
- E a japonesa?
- Não falava português. Only English...
- E daí? Eu falo inglês fluentemente, e você também.
- Pô, Silvinha. Pra morar comigo tem que falar a minha língua.
Silvinha não agüentou. Teve que rir. Tentou disfarçar:
- E a argentina?
- Era argentina.
Apesar de duvidar que existisse algum sentido ou explicação plausível naquilo, Silvinha tentou desvendar o raciocínio da amiga:
- Será que perdi alguma coisa? Por que essa eu realmente não entendi.
- Me recuso a dormir no quarto ao lado do de uma pessoa que acha que Maradona é melhor do que Pelé!
- Surreal! - foi o que Silvinha pensou ao ouvir.
Mais ainda com o que veio a seguir: um barulho de descarga inconfundível.
- Cris, eu não acredito! Sabe que eu detesto quando você vai ao banheiro enquanto fala comi...
- Pera! Só um minutinho!
Durante os instantes que se seguiram, Silvinha ficou se esforçando para não imaginar o que a amiga estava fazendo... Sem conseguir. Podia quase ouvir o barulho do papel higiênico. Com uma careta, deixou escapar novamente:
- Puta que o pariu, Ana Cristina!
Que obviamente, Cris não ouviu. Ainda levou algum tempo para voltar, como se nada tivesse acontecido:
- Pronto! Pode falar, Silvinha!
Pelo barulho de água, Silvinha já sabia: lavando as mãos, enquanto equilibrava o celular entre o ombro e o ouvido...
Não disse mais nada. Nem poderia. Apenas suspirou, resignada. Já estava acostumada. Afinal... Aquilo era total e absolutamente Cris.


- Porra, Silvinha! A gente não tinha combinado que ia sempre fazer uma prévia por telefone antes de deixar qualquer uma vir aqui?
Silvinha gritou da cozinha:
- Tive que abrir uma exceção, amiga. A garota não é qualquer uma. Tem referências. E preferência! Pensa: prima da minha amada chefinha.
Cris não pareceu muito convencida:
- Pois não espere que eu faça reverências! Pouco me importa de quem ela é prima. Pode muito bem ser uma psicopata ou uma maníaca...
Como num passe de mágica, teve toda a preocupação dissipada pela aparição de Silvinha trazendo duas caipirinhas:
- Relaxa, porque a menina já deve estar quase batendo aí.
Mas ainda perguntou, enquanto pegava o copo que Silvinha estendia:
- Pelo menos sabe o nome da nossa nova roommate escolhida por puro nepotismo?
Silvinha não deu muita trela:
- Sei lá. Esqueci. Começa com B... Mas pra que diabos você quer saber?
Enquanto misturava melhor a bebida com o dedo enfiado no meio do gelo, Cris descascou:
- Pra que seria, né, Silvinha? Pra fazer a numerologia! Eu, hein? Bom, daqui a pouco nós vamos descobrir. – se ajeitou melhor no sofá, e mudou o tom completamente – Quer saber? Quando o estupro é iminente, relaxe e...
Completaram juntinhas:
- Goze!
Beberam ainda rindo. A careta de Cris após o primeiro gole fazendo Silvinha perguntar:
- Forte demais?
Cris assentiu. Para logo depois completar:
- Abusou, hein amiga? Álcool na veia! Já me vi deitada na sarjeta com uma cachorra desconhecida lambendo a minha boca por muito menos...
Silvinha teve que rir:
- Ah, claro! Que desculpa mais perfeita pra atos de promiscuidade: foi o álcool! Acontece que na verdade, bêbados só fazem aquilo que realmente têm vontade. É como diz o ditado: a bebida entra, e a verdade sai...
Olhando para cima, e deixando escapar um suspiro exasperado, Cris replicou:
- Tá bom, Silvinha! Lindo bla bla bla., mas... Primeiro tome um porre, uma vez que seja, pra depois poder falar!
Voltou a sentar no sofá, no momento exato em que o interfone tocou. Silvinha correu para atender:
Cris ouviu a amiga quase gritar para o porteiro, empolgadíssima:
- Manda subir!
Antes de voltar para a sala correndo. Visivelmente ansiosa, ajeitando as roupas e o cabelo:
- Tô bem assim?
Fazendo Cris frisar, da forma mais implicante e irônica possível:
- A pretendente é para o quarto, queridinha. Não pra você.
Mas Silvinha não se deixou abater:
- Quem sabe? Estou com um pressentimento que... – a campainha tocou. Ela completou, antes de atender – Bom... Nós já vamos ver.
Abriu a porta, e...
De onde estava sentada, Cris não conseguiu enxergar, mas pôde imaginar, antes mesmo da garota entrar, só de ver a reação de Silvinha. 
Levantou quase correndo por dois motivos: o primeiro, uma curiosidade irresistível. O segundo, para salvar a amiga, uma vez que...
Silvinha continuou paralisada, completamente muda em frente à porta. De queixo caído...

Capítulo Dois

Cris quase correu até a porta:


- Oi, prazer! Eu sou Cris, e essa aqui é a Silvinha.


Estacou com a visão que teve. A morena absolutamente...


- Bárbara.


A única coisa que Cris conseguiu pensar, enquanto apertava a mão que o mulherão estendeu, foi:


- Realmente...


Tempo para Silvinha se recuperar o suficiente para sair da frente, permitindo que a pessoa que mais combinava com o próprio nome que já haviam visto entrasse.


Depois de fechar a porta, Silvinha conseguiu gaguejar um inseguro:


- Não quer sentar?


Que Cris completou indicando a caipirinha que ainda segurava:


- Quer uma?


Com um sorriso tão simpático que chegava a ser indecente.


Bárbara sentou no sofá, cruzou as pernas absolutamente perfeitas, passou a língua nos lábios de uma maneira inacreditavelmente obscena, e só então respondeu:


- Obrigada. Eu aceito.


No primeiro momento, nenhuma das duas se moveu. Hipnotizadas pela mulher monumento. Depois, Cris deu um empurrão em Silvinha, dizendo:


- Vai lá você.


Muito a contragosto, Silvinha obedeceu. Cris então voltou toda a atenção ao espetáculo que tinha na frente:


- E então... Bárbara, né? – a morena assentiu com a cabeça – O que você...


Foi interrompida pela campainha. Caminhou até a porta após pedir:


- Com licença...


Aproximou-se do olho mágico achando estranho. Com certo receio. Afinal... Não estavam esperando ninguém, e assaltantes invadindo prédios e fazendo moradores de refém era moda na Zona Sul do Rio de Janeiro...


Silvinha gritou da cozinha:


- Quem é?


Ao mesmo tempo em que Cris olhava, e via... Uma garota de roupas muito coloridas voltar a tocar, com evidente impaciência, a campainha.


- Quem é?


Ainda perguntou, desconfiadíssima. Poderia muito bem ser a isca, e os bandidos estarem escondidos...


No entanto, a resposta foi surpreendente:


- Sou a Brenda. Vim ver o apartamento.


Abriu a porta, ainda sem entender. Não teve tempo de falar, porque... Foi com uma rapidez inacreditável que todo o resto aconteceu...


A garota vestida de forma carnavalesca arregalou os olhos, chocada com sabe-se lá o que... O berro de pavor que Silvinha soltou da porta da cozinha ecoou por toda a sala... Cris se virou e também não acreditou no que viu...


Bárbara inteiramente despida, com exceção de uma calcinha minúscula e absolutamente transparente, os sapatos de salto agulha e um chicotinho que brandia no ar, enquanto dizia com uma voz grave e dominadora:


- Vou mostrar quem é que manda aqui, cadelas!

A garota multi colorida exclamou:

- Meu Deus, o que é isso?

Silvinha gritou:

- Cacilda Becker! A prima da minha chefe é sadomasoquista!

Cabendo a Cris tentar recuperar a ordem e o controle:

- Que putaria é essa? Cadelas vírgula! Tá pensando o que, minha filha?

Bárbara abaixou o chicote, completamente surpreendida:

- Ué... Não era isso que vocês queriam? Mas foi o pedido...

Imediatamente, Cris inquiriu:

- Pedido? Que pedido?

Como resposta, a dominatrix ainda despida questionou:

- Aqui não é o 207?

Foi Silvinha quem respondeu:

- Não.

Com um suspiro exasperado, Bárbara soltou:

- Ai, cacete! – começou a se vestir, enquanto falava – Eu sinto muito, meninas. Errei de apartamento...

Cris deixou escapar sem querer:

- Tava bom demais pra ser verdade...

Bárbara parou na frente dela - toda arrumada de novo, com a bolsa pendurada, pronta para seguir seu rumo – e falou:

- Fica chateada não, gata. Toma. – entregou um cartãozinho para Cris – Me liga, que eu compenso o transtorno te fazendo um precinho camarada.

Completou a frase com uma piscada sedutora, antes de perguntar:

- Alguém sabe onde fica o 207?

Foi Silvinha quem respondeu:

- No corredor lá do outro lado.

Cris continuou parada, segurando o cartão, olhando fixamente para a retaguarda da prostituta que se afastava...

Só voltou a se mover quando ouviu Silvinha falar para a garota que permanecia boquiaberta do lado de fora:

- Vamos entrar?


Silvinha ofereceu a caipirinha que ainda estava segurando – a mesma que havia acabado de fazer para mulher de vida fácil – para a prima da chefe, com um sorriso quase melado:

- Quer?

Brenda olhou para ela, ainda desconfiada – ainda estava nervosa por causa do susto que havia levado - mas resolveu aceitar:

- Por que não?

Surpreendentemente, Silvinha continuou tomando a frente:

- Senta. Fica à vontade.

Cris ficou observando, sem dizer uma palavra. Na verdade, ainda pensando no que poderia ter acontecido se a chatinha no sofá não houvesse aparecido e feito a gostosuda descobrir que estava no lugar errado...

- Mas então... Fala um pouco de você, Brenda. O que você faz?

A pergunta inesperada a assustou. Ou talvez Brenda tenha chupado o canudinho com vontade demais... O fato é que se engasgou, tossiu, e acabou respondendo um pouco afogada:

- Sou figurinista, aderecista e cenógrafa.

Cris a olhou como se ela fosse de Marte:

- Ãh?

Brenda então fez questão de informar:

- Formada em Belas Artes na UFRJ.

Mas Cris ainda estava achando sobrenatural:

- Você vive de teatro?

O canudo fez um barulho alto, informando que a caipirinha dela havia terminado, antes de Brenda completar:

- Também trabalho com Carnaval. Bom, se isso é um problema, eu...

Fez menção de levantar, mas Silvinha a interrompeu:

- Pelo contrário! É muito legal. Eu acho o máximo!

Brenda tentou entender:

- O que? Carnaval?

Imediatamente, Silvinha esclareceu:

- Não! Quer dizer.... Também... Eu... Eu adoro arte!

Cris franziu a testa... O passeio preferido de Silvinha era ir ao Shopping Center... Mas não falou nada.

Com uma ousadia que nunca havia sonhado, Silvinha voltou a perguntar:

- E você está... Solteira?

A resposta foi rápida:

- Acabei de me separar.

Não satisfeita, Silvinha foi ainda mais arrojada:

- Era casada com homem? Ou mulher?

Cris não conseguiu segurar. Deixou escapar um:

- Afe!

Brenda também soltou sem pestanejar:

- Homem. Por que? Faz diferença pra vocês?

Cris começou:

- Na verdade...

Mas Silvinha não a deixou terminar. E foi verdadeiramente abusada:

- Nós somos lésbicas. – olhou Brenda dentro dos olhos, antes de completar: - Algum problema?

A resposta veio sem hesitar, nem piscar:

- Claro que não.

Continuaram se fitando profundamente. Um olhar repleto de significado. Até Brenda desviar para o copo que ainda segurava.

Toda solícita, Silvinha fez questão de oferecer:

- Quer mais?

Brenda aceitou, e agradeceu. Silvinha pegou o copo que a outra estendia, prolongando o contato das mãos muito mais do que o necessário...

Depois puxou Cris para a cozinha, se desculpando de forma exagerada:

- Com licença. Só um momentinho. Minha amiga vai me ajudar. Vamos te deixar um pouco sozinha, mas é rápido. Por favor, fique à vontade. Sinta-se... Em casa!

Assim que se viram à sós, Silvinha sussurrou:

- Nossa... Você viu que perfeita?

Cris respondeu com um sorriso safado:

- Bárbara, de verdade! Era algo, mas...

Silvinha a cortou, indignada, mas ainda sem falar num volume normal:

- Não... A Brenda...

Cris não entendeu mais nada:

- Brenda? Quem é Brenda?

Silvinha tapou a boca da amiga bem rápido, antes de voltar a sussurrar:

- Psiu! Ela vai ouvir... Fala baixo... A mulher da minha vida, que tá sentada lá na sala.

A perplexidade fez Cris quase gritar:

- Quê? A Carnavalesca que pelo jeito passa o ano fantasiada?

Com um olhar perdido, de um jeito quase visionário, Silvinha prosseguiu:

- Minha alma gêmea... Meu par perfeito... Minha cara metade... Tenho certeza! Posso sentir que estamos... Pré destinadas...

Cris só percebeu que estava sacudindo a amiga quando levou com os cabelos dela na cara:

- Silvinha, para com isso! Deixa de loucura! A maluca beleza multi color é prima da sua chefe, vai morar com a gente, não tá vendo que é roubada?

A primeira reação de Silvinha foi gemer e xingar:

- Ai! Cacilda Becker! Meu braço vai ficar todo roxo... Me solta! Puta que o pariu, Ana Cristina! Ai, ai!

Sem dar a menor importância para os protestos de Silvinha, Cris voltou a avisar:

- Esquece essa insanidade! Vamos voltar lá pra sala, e você vai fingir que é uma pessoa normal, tá?

Depois que Cris finalmente a soltou, Silvinha pareceu concordar:

- Tá.

Para logo depois, mostrar o quanto estava mal intencionada:

- Mas antes vou preparar mais caipirinhas para nós. Várias!

Sussurrou para si mesma:

- A bebida entra e a verdade sai...

Não baixo o bastante para a amiga não escutar. Cris tentou dar de ombros, sem resultado. Tinha certeza, antes mesmo de voltarem para a sala:

- Isso não vai prestar!

Capítulo Três

- Ai...
Cris gemeu baixinho, ainda sem estar completamente desperta.
Continuou de olhos fechados, tentando manter a impressão deliciosa do sonho que estava tendo...
Sensação que misteriosamente permaneceu, mesmo estando inteiramente desperta.
Não abriu, arregalou os olhos, sentando na cama  num susto:
- Pelos deuses! O que é isso?
Imediatamente se arrependeu. A cabeça girou como um carrossel, simulador da NASA, ou sabe-se lá o que...
Enquanto tentava conter a ânsia de vômito que subiu garganta acima, no meio da escuridão absolutamente completa, a mulher no meio das pernas dela respondeu, sem soltá-la, nem parar o que estava fazendo:
- Shhh...Quietinha... Aproveita...
Cris não precisava enxergar, a voz era inconfundível:
- Brenda?
A resposta foi um grunhido. Acompanhado de um irresistível acelerar de língua...
Cris não conseguiu, sequer tentou reprimir um novo gemido. Voltou a deitar na cama, decidindo:
- Diabos! Amanhã eu penso nisso...
Apesar da turbulência mental e estomacal que o novo movimento fez ressurgir, rendeu-se. Entregando-se ao prazer proporcionado pela multi colorida.



Quando Cris acordou, assustou-se por estar despida. Na mesma hora olhou para o lado, e viu com alívio que estava sozinha.
Vestiu-se antes de sair do quarto, e entrou alegremente na cozinha. Espantou-se por encontrar Silvinha de cara fechadíssima
A amiga nem a deixou dizer bom dia:
- Puta que pariu, Ana Cristina!
Com um espanto verdadeiramente sincero, perguntou:
- Credo, Silvinha! Que foi que eu fiz?
Com um cerrar de olhos enfurecido, Silvinha não falou, rugiu:
- Ainda pergunta?
Os olhos de Cris se arregalaram, a boca se abriu. Ficou um instante parada, tentando decifrar o motivo daquilo...
Inútil.
Nem uma pista.
Silvinha gritou, o dedo em riste:
- Você comeu a mulher da minha vida!
Com a mão no peito de forma defensiva, Cris não entendeu:
- Eu?
Silvinha assentiu com a cabeça, antes de uivar o seguinte:
- Você não é mais minha amiga!
A afirmação foi tão absolutamente esgoelada, singela e infantil, que Cris ficou sem saber se chorava, ria, ou se defendia.
Não teve tempo de decidir. Silvinha completou:
- Nunca mais fale comigo!
Antes de cair num pranto convulsivo.
Sem pensar, Cris seguiu o mais natural de todos os impulsos: apertou a amiga entre os braços, tentando consolar e justificar:
- Eu não fiz nada, Silvinha! Juro que acordei sozinha...
Entre soluços e fungadas, com o nariz inchado e entupido, Silvinha protestou:
- Você trepou com a minha alma gêmea!
A primeira reação de Cris foi rir:
- Claro que não! Não aconteceu nada!
Silvinha soltou-se com um empurrão que Cris não previu:
- Como não? Eu vi!
Cris retrucou:
- Não inventa coisa que não existe! Nós não ficamos as três juntas na sala, tomando caipirinha?
Depois de um longo e significativo suspiro, Silvinha replicou:
- E depois?
Ficaram se encarando por segundos que pareceram não ter fim. Cris franziu o rosto, num esforço inútil de juntar as peças:
- Depois? Depois...
Nada. Uma grande ausência. Era só o que existia entre a última imagem da sala, depois de perder a conta do número de caipirinhas ingeridas, e o despertar no próprio quarto, completamente despida...
Silvinha repetiu:
- E depois, Ana Cristina?
Como uma aluna arguída que desconhece a resposta, Cris gaguejou:
- Eu... Eu...
Sem um pingo de pena pelo desespero evidente nos olhos da “ex amiga”, Silvinha insistiu:
- Você...?
Foi quando Brenda entrou na cozinha. Com um sorriso quente e íntimo, passou os braços ao redor do pescoço de Cris:
- Bom dia!
A última sílaba soprada contra os lábios dela, por onde já se aventurava a língua...
Cris não correspondeu, mas também não resistiu. Deixou-se beijar, sem fechar os olhos, que receberam o furor dos de Silvinha.
Sem perceber o clima, antes de soltá-la, Brenda ainda lhe sussurrou no ouvido:
- Você me deixa... Nem sei... Nunca senti isso...
Causando arrepios. Nem de longe do tipo que pretendia.
Completou com um felicíssimo:
- Já volto, linda.
E saiu.
Silvinha sacudiu a cabeça em reprovação, e Cris...
Tudo o que pode fazer foi dizer...
Três palavrinhas.
Expressão precisa do que estava sentindo:
- Puta que pariu!

Capítulo Quatro

- Silvinha, o que aconteceu ontem?
Ignorando Cris completamente, Silvinha caminhou até o banheiro. Cris a seguiu, no mais completo desespero:
- Você precisa me contar, eu não me lembro!
Silvinha parou o gesto de fechar a porta no meio. Ergueu uma das sobrancelhas, e pelo vão sibilou, como se estivesse cuspindo veneno:
- Pergunta pra Brenda. Ela com certeza, sabe muito mais do que eu.
Completou batendo a porta com força. Cris só teve tempo de afastar a mão para evitar a perda de um dos dedos.
Ficou um momento parada, de cara para a porta, esperando que Silvinha a reabrisse...
Só quando ouviu o ruído do chuveiro se afastou de vez.


Abriu a geladeira, pegou uma garrafa de água e a sorveu como uma mamadeira. Estava seca, ou melhor: tinha um deserto por dentro.
Uma sede de muito mais do que queria e podia confessar ou entender.
O celular acusou o recebimento de uma mensagem. Correu até o quarto. Suspirou desanimada ao ler:
“Lindinha, já estou chegando. Vou levar um vinho pra gente. Tinto ou branco? Suave ou seco? Bjs nessa sua boca gostosa, Brenda”
Atirou o celular na cama com um suspiro angustiado no exato momento em que Silvinha parou na porta, enrolada numa toalha apenas:
- Algum problema?
Cris não andou até a porta, correu:
- Me ajuda, amiga! Eu não sei o que fazer!
Atirou-se com tanto ímpeto nos braços de Silvinha que esta foi obrigada protestar, em meio à difícil tarefa de segurar o único pedaço de pano que a separava da nudez:
 - Ei! Calma aê! Se a sua namoradinha vê isso, o que vai dizer?
Funcionou imediatamente. Cris a soltou, se afastou quase num pulo mesmo:
- Namoradinha? Ela e eu... Nós não estamos...
Silvinha riu, satisfeita. Antes de ir em direção ao próprio quarto, perguntando maldosamente:
- Tem certeza?
Como esperado, Cris foi atrás dela:
- O que você quer dizer?
Silvinha não respondeu. Vestiu a calcinha antes de atirar a toalha na cama, abriu o armário e ficou escolhendo o que vestir por um longo tempo.
Cris, por sua vez, travou uma rápida luta em pensamento:
Amiga ou não amiga, Silvinha tinha... Uma beleza de... Equipamento... Difícil, para não dizer impossível controlar os olhos, que... Bom... Coisa bonita era para se admirar, e olhar não tirava pedaço... Pecado era desviar os olhos, não é mesmo?
Felizmente, só depois de pegar e colocar um vestido, mirar e aprovar o resultado no espelho é que Silvinha voltou a atenção para Cris novamente:
- Eu já te disse, Ana Cristina: pergunta pra Brenda!
Cris engoliu em seco. Abaixou a cabeça. Quando voltou a fitá-la, estava com os olhos marejados de sofrimento:
- Poxa Silvinha... Você já não me torturou o suficiente?
Com uma gargalhada digna da madrasta da Branca de Neve, a resposta veio:
- Tudo que eu fizer vai ser pouco, perto do que você fez!
Se era uma cena que ela queria, era uma cena que iria ter...
Com esse pensamento, Cris caiu de joelhos, com as mãos no peito teatralmente:
- Como posso te compensar? Quero me redimir. Faço o que você quiser, prometo!
A surpresa inicial de Silvinha foi rapidamente substituída por um sorriso puramente maquiavélico:
- Uhm... Mesmo?
Sem hesitar, Cris respondeu:
- Mesmo!
Silvinha não perdeu tempo. Pegou Cris pela mão e a puxou em direção ao notebook em cima da mesa da sala.
- O quê? Mas...
Cris ameaçou questionar, mas Silvinha a calou com um seco:
- Psiu!
Ao invés de explicar.
Entrou na internet, acessou um site rapidamente. Cris mal teve tempo de olhar:
“PAR IDEAL - A sua alma gêmea ao alcance de um clique”
Quando deu por si já estava sendo beijada e apertada:
- Senti saudade...
Brenda ainda disse antes de percorrer cada pedainho da boca de Cris com a língua.
Silvinha nada falou. Mas pensou:
- Puta que pariu!




Cris não era o tipo que tem pudores na cama, mas aquilo também... Era no mínimo, ridiculo...
Mesmo assim, se deixou derrubar na cama pela mulher fantasiada de Ninja.
Fitou os olhos, única parte do corpo da outra à mostra, e tentou protestar:
- Brenda, escuta...
Foi calada com um tapa:
- Calada! Não tem Brenda nenhuma aqui!
Arregalou os olhos, planejando uma forma de se defender, ou quem sabe... Fugir...
Mas então, as mãos da Ninja louca mudaram completamente. Ocupando-se em apalpar, acariciar e desnudar Cris inteira.
- Linda... Gostosa... Delícia...
Arrancou a máscara e a touca para beijar Cris na boca com voracidade, chupando a língua, arrancando gemidos...
 Tocou e acariciou os seios dela, enquanto descia os lábios pela parte mais sensível do pescoço.
Afastou-se um pouco, tirou o cabelo do rosto, e ficou admirando o belo par de seios que tinha nas mãos. Brincou passando a língua nos mamilos duros, chupando, lambendo, fazendo Cris praticamente ronronar. Sorriu satisfeita ao exclamar:
- Agora sim... Muito melhor...
E então desceu pelas coxas de Cris,  provocando-a antes de realmente mergulhar entre as pernas dela.
Cris segurou Brenda pelos cabelos, tentando inutilmente dominá-la, mas a mulher era uma fera... Lambeu e chupou sem pressa, numa tortura proposital e calculada, verdadeira loucura...
Entre um gemido e outro, Cris ainda conseguiu sibilar:
- Você... Pensei que você... Tivesse dito que... Era... Hetero...
Sem parar o que estava fazendo, a Ninja desmascarada perguntou ao invés de responder:
- Hetero, eu?
Cris insistiu. Tentando compreender:
- Não era... Ai... Casada com um... Ai...
A própria Brenda completou:
- Com um homem. E?
A língua de Brenda passeou devagar, depois com força, fazendo Cris se contorcer e gemer várias vezes antes finalmente conseguir replicar:
- Então...
Os dedos juntaram-se à língua, num impaciente e profundo:
- Isso realmente importa?
Cris tentou inutilmente controlar os sons que emitiu... Só conseguiu balançar a cabeça negativamente em resposta.
A Ninja enigma riu, antes de aumentar o ritmo, encerrando a conversa com um irresistível:
- Então relaxa e goza...


Silvinha agradeceu mentalmente quando no quarto ao lado, o silêncio se estabeleceu. 
Cris acompanhada não era novidade, porém... Uma barulheira daquelas? Era a primeira vez.
Abaixou o som da tv. Ficou alguns minutos olhando para as imagens sem conseguir prestar atenção direito. Os olhos foram pesando, o sono chegando... Bocejou, pegou o controle para desligar o aparelho e poder finalmente dormir no escuro e no silêncio, quando...
Tudo novamente.
Absolutamente indignada, voltou a aumentar a tv.
A noite ia ser longa pelo jeito...
- Pelos deuses!
Gritou, antes de tapar os olhos e os ouvidos com o travesseiro.

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